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HERDEIRA DA

COMUNIDADE TIA EVA

A Comunidade Quilombola Tia Eva, localizada na região norte da cidade de Campo Grande nasceu da fé inabalável de Eva Maria de Jesus. A história da comunidade se confunde com a da própria fundadora.

       Eva Maria, mulher negra, escravizada, nascida 1848 no interior de Goiás, sua história se mantém viva graças à memória oral de seus descendentes. Os registos documentais sobre a época são escassos, fazendo com que sua biografia se mantenha através dos relatos de seus familiares e moradores da comunidade.
       Ela sonhava com liberdade, em possuir uma terra que fosse somente de negros. Sua carta de alforria foi conquistada aos 41 anos, em 1888, com a promulgação da Lei Áurea. 
Em busca de seus sonhos, Eva emigrou com sua família, as três filhas, Joana, Lázara e Sebastiana para o então estado de Mato Grosso. Em 1905, estabeleceu-se em Campos de Vacaria, atual município de Campo Grande. 
      As recém-chegadas, vindas em carros de boi, se estabeleceram às margens dos córregos Segredo e Cascudo, zona norte da capital. 
Conhecida como mulher forte e religiosa, Tia Eva era parteira e benzedeira, conhecedora de plantas e remédios caseiros, usava sua sabedoria para ajudar o próximo, era conhecida por toda a região. Seu bisneto, Sérgio Antônio da Silva, popularmente conhecido como Seu Michel, diz que pessoas vinham de todas as partes procurando sua ajuda.
      Sua fé era tamanha que Eva, muito devota, com uma ferida na perna que não cicatrizava, pediu ajuda ao santo. Em sua reza fez a promessa para que caso fosse curada compraria um terreno e construiria uma capela para São Benedito.

Sérgio Antônio da Silva, o "seo Michel"

Do pau a pique à alvenaria

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“Para cumprir a promessa feita ao santo, primeiro foi erguida uma capela de pau-a-pique”, diz Vanda Moraes, na cartilha Tia Eva, Negraeva. Ao redor da capela é que a comunidade Tia Eva começa a se fortalecer.
Em 1919, é construída, com a ajuda de doações, a igreja de São Benedito, feita em alvenaria. Mais tarde, em 13 de maio do mesmo ano, é realizada a primeira festa de São Benedito.
Eva, nesse momento, renova seus votos com o santo e promete que enquanto alguém de seu sangue viver a festa será realizada. Com isso, Tia Eva transfere aos seus descendentes o compromisso assumido com o santo e sela, assim, o futuro da comunidade, movida pela promessa da fundadora mãe. 

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A HERANÇA

As herdeiras de Tia Eva cumprem papel determinante na continuidade da fé e da luta por direitos. O Grupo das Mulheres Negras da Comunidade de Tia Eva (Gmune), hoje, lidera esse trabalho que envolve atenção à vida comunitária, especialmente, às mulheres, crianças, adolescentes e idosos. 

      Paramos em frente ao portão rosa, com o número indicado, estava entreaberto e ao longo do corredor visualizamos o espaço organizado com cadeiras e bancos de madeira e onde já estavam reunidas 15 mulheres do Grupo de Mulheres Negras da Comunidade de Tia Eva (Gmune), que hoje é liderado por Odete Cardoso, advogada. Sua fala flui conforme a rapidez dos seus pensamentos, como define a própria Odete.
      Como coordenadora e presidente do Gmune, ela veio nos receber dizendo: “Já estamos terminando a discussão e logo conversaremos”. Nos assentamos por instantes, com nossos equipamentos, e esperamos. Começamos fotografando o grupo e logo após iniciamos a entrevista. Fomos muito bem acolhidos na primeira reunião com presença de visitantes. As mulheres, de diferentes faixas etárias, estavam receptivas e sorridentes.
      A primeira a falar foi Odete, com meio sorriso, postura firme, uma tiara destacando os cabelos curtos e sem gesticular, explicou que a ideia da criação do Gmune saiu de uma roda de tereré costumeira, onde debatiam assuntos pertinentes às mulheres que ali residem, seus problemas com empregos, filhos pequenos e esposos que, muitas vezes. sofrem com o desemprego e uso de bebidas.
     Decidiram definir os rumos de suas vidas, se juntar para encontrarem as soluções dos problemas e conflitos, assim, por elas mesmas, com fé e buscando suas próprias forças. Força da raiz, pelo legado da mulher forte, chamada Eva Maria de Jesus, a tia Eva. São fortes, decididas e um tanto metódicas, talvez por saberem estar lidando com as mais variadas formas de dominação na sociedade que ainda hoje, no século XXI, oprime e discrimina.
      Odete explica que no começo não foi fácil, conta que a partir de outubro de 2014, desde que participou do projeto “Teclas Negras”, oferecido por um cineasta, percebeu que a reprodução dos conteúdos e a forma de tratamento das mulheres negras era diferenciada e inadequada. Nasceu uma revolta. 
“A partir daí, tomamos atitude e fomos criando outra realidade não só na vida pessoal, mas com toda a comunidade e mudando a maneira que a sociedade nos vê, as questões de racismo e na profissão. Não é simplesmente a mulher negra representar a doméstica…”
      Reuniu as mulheres para voltarem a estudar, terminar o ensino médio, ir para a faculdade. Procuram resolver todos os problemas juntas e resistindo a todas as formas de dominação existentes.
      Para representar essa união, até hoje, elas tem um lema, ressaltado pela palestrante Romilda Pizani na “Roda de Conversa do Gmune”, nas festividades de São Benedito deste ano. Na camiseta do evento, o texto: “Uma sobe e puxa a outra!”
      Todas as mulheres que compõem o Grupo são de muita expressividade, fizeram parte de um projeto importante dentro da Comunidade, o Projeto Negra Eva, resultado da parceria da Associação dos Descendentes de Tia Eva e a Universidade Fedral de Mato Gross do Sul (UFMS), através do Departamento de Jornalismo, com financiamento da Fundação Ford/UERJ. Mostram-se bem resolvidas na vida e consideram-se exemplo para as mulheres mais jovens da Comunidade em que vivem. Na verdade, uma reedição nos moldes modernos, porém, são mulheres de atitude como foi a matriarca Tia Eva.
      Quanto à organização, elas dizem ainda estar legalizando e adequando ações. Para isto, estão criando o estatuto do Gmune. A sede  funciona na casa das participantes da diretoria, alternadas. A missão do grupo é definida por Odete.”Se você pensa você pode, a mulher negra tem que entender isso e nós vamos reagir e seremos o que queremos ser, essa é a maior missão do nosso grupo”.

“A partir daí, tomamos atitude e fomos criando outra realidade não só na vida pessoal, mas com toda a comunidade e mudando a maneira que a sociedade nos vê, as questões de racismo e na profissão. Não é simplesmente a mulher negra representar a doméstica…” (Odete Cardoso)

Conversas circulares

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As reuniões do Gmune ocorrem regularmente e concentram discussões sobre os direitos e as ações junto à comunidade. Foto: Neize Borges

A roda de conversa, realizada como parte da programação da 99ª  Festa de São Benedito- de 11 a 20 de Maio de 2018, foi um momento em que houve interatividade, solidariedade e interesse mútuo. As mulheres com seus filhos no colo, em silêncio, prestando toda a atenção possível às palestras ministradas com entusiasmo pelas líderes.
Participaram da roda de conversa, mulheres interessadas, associadas do grupo Gmune, psicólogas, assistentes sociais, advogadas e servidoras públicas, professoras da escola da comunidade e universitárias, assistentes de promotoria local, além de diversas figuras femininas participantes de Conselhos Municipais e Estaduais. 
Durante a Roda de Conversa, discutiram muito sobre ter personalidade e dedicação em tudo que fazem, sobre possibilidades de maior interação e participação da comunidade com a sociedade de Campo Grande. 
 Foi um momento de aprendizado até mesmo para nós, estudantes, que ouvíamos as palestras pela primeira vez. Elas utilizaram de todas as formas de empoderamento da mulher negra, e para todas as mulheres que aderem ao movimento, verificamos muitas interessadas de outras comunidades. Todas seguem costumes, alguns explícitos outros não, gostos e heranças de memória, um espírito de retidão em que a comunidade negra acredita estarem enraizadas no DNA de cada uma.  Outros costumes ligados com o legado de Tia Eva: a união, a solidariedade, honestidade, a fé e a prática do bem, juntamente com a força do trabalho das próprias mãos.

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Cabeças empoderadas

      Interessante a maneira como transmitem segurança, enquanto agem para aumentar a autoestima das mulheres, e principalmente, as mulheres negras da comunidade São Benedito. Toda dedicação, empenho e interatividade ficou muito claro durante os preparativos para o evento “Desfile de Turbantes”, organizado pelo Gmune, no âmbito da festa de 2018.
      Acompanhamos todo o trabalho, elas chegam com os cabelos muito bem penteados, coloridos e com belas tranças que ficam por baixo dos turbantes e às vezes com parte dos cabelos à mostra. Para mulheres negras não é um simples acessório, o turbante representa classe e empoderamento. É um elemento cultuado por elas, não só pelas cores e formas, mas pela arte. Arte que também pode ser usada por homens e meninos.
      As formas, cores e desenho, criadas para cada rosto, às vezes até trabalhados com agulha e linha, realmente tem poder transformador. Participei da experiência, deixei de observar através da câmera e experimentei pela primeira vez a sensação de carregar um turbante. Confesso que talvez o turbante tenha me carregado. 

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A anfitriã

      Mulher, negra, mãe e artesã. Neuza Jeronima Rosa dos Santos, 68 anos de muita experiência e empenho junto à comunidade quilombola mais antiga de Campo Grande. A exemplo de outras mulheres, é a hospitalidade em pessoa e herdeira da devoção de Eva Maria de Jesus.
      A mulher guerreira, mãe de três filhas e avó de cinco netos é o exemplo da resistência negra em Campo Grande. Com coragem e disposição de sobra para enfrentar qualquer situação de racismo vivenciada,  a tataraneta de Eva Maria de Jesus,  Neuza Jeronimo Rosa dos Santos, estampa no rosto a felicidade em recontar histórias e reviver fatos marcantes de sua vida comunitária  em quatro décadas vividas no local. Dona Neuza não perde a humildade e o sorriso no rosto em seu cotidiano. “ Eu vivo com coragem para fazer sempre o que for necessário”, comenta com olhos marejados.  
      Com forte devoção em nossa Senhora Aparecida e em São Benedito, a fé de Dona Neuza ajudou a vencer barreiras. Viúva aos 37 anos de idade, não hesitou em seguir em frente com seus objetivos e criou, sozinha, três filhas. A responsabilidade e compromisso com o lugar fazem dela uma descendente de respeito.
      É possível enxergar que a vida na comunidade é agitada e está sempre em constante mudança, seja pelos moradores, ou, principalmente, pelos movimentos culturais e sociais que ocorrem no local. No decorrer de suas falas, Dona Neuza deixa evidente sua garra e força de vontade para deixar um legado. Morou na fazenda com os pais,  se casou e deu início à vida na comunidade de São Benedito, trazendo consigo o ‘mundo’ das recordações desses 40 anos vivendo ali. Memórias que a deixam radiante como, por exemplo, o  artesanato com argila, que a mesma realizou em meados de 2008, a atividade  foi o combustível para deixar de lado a depressão e superar a viuvez. 
      Dona Neuza conta sorridente, sobre o que ela chama de ‘melhor projeto da comunidade’. Foi locutora  da Rádio Popular São Benedito que funcionou entre os anos de 1992 até 1994 junto à torre da igrejinha de São Benedito, das 15 às 17 horas. A rádio funcionava com um sistema de som que atendia toda a comunidade através de avisos e  notícias. Era o projeto de conclusão de curso da acadêmica de jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Eliana Maria Gonçalves Tavares, com orientação do então professor da disciplina de comunicação alternativa, Edson Silva. Projeto que rendeu a Dona Neuza conhecer ainda mais os moradores da região, através de entrevistas que fazia. 

​​Neuza Jeronima Rosa dos Santos, 68 anos. 

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Estudo e luta

      Com sorriso honesto, daqueles que revelam a simpatia intrínseca do ser, Andrinéia de Santana materializa as mais diversas minorias em si mesma. Moradora da comunidade quilombola de São Benedito, descendente de Eva Maria de Jesus, mulher, negra, mãe, pedagoga e professora da Escola Antônio Delfino Pereira. Abandonou os estudos ainda jovem, na mesma época em que a maternidade a abraçou. Ser mãe e não ter como oferecer o melhor, obriga mulheres a rever seus conceitos, impõe a elas obrigações extremas a ponto de conseguir fazer com que voltem a frequentar os corredores escolares.
Sete anos depois da evasão, foi na Educação para Jovens e Adultos que Andrinéia conseguiu visualizar o futuro. Teve que terminar o oitavo ano e, depois, cursar o Ensino Médio. Criando dois filhos, trabalhando como babá, distribuindo leite para o Governo e estudando, uma rotina exaustiva que não permitia reflexão. Fez tudo de uma vez só, levantando e andando sem analisar a carga física e emocional que estava carregando.
      A conclusão do nível médio foi o pontapé inicial do significado literal da palavra ressignificar. Ingressar na universidade e concluir o curso não foi a tarefa mais simples, mas facilidade é uma palavra que não aparece no seu dicionário pessoal. Para Andrinéia a moeda de uso mudou, capital intelectual passou a valer mais que o real. Quando se ocupa um lugar à margem é difícil chegar ao centro, mas isso não quer dizer que seja impossível. Ainda melhor quando, galgando um espaço no meio, se percebe que é na borda que se pretende ficar, é ali que se pode fazer a diferença.

 

      Mudando a própria comunidade
      Na fala calma e envergonhada, Andrinéia expõe com modéstia a rapidez da contratação na escola que ela mesma frequentou quando criança. Os mesmos corredores, as mesmas salas de aula, com a diferença que ela agora fica à frente. Ela brinca que acha muito engraçado dividir espaço com mulheres que outrora foram suas professoras.
     Quando fundou a Comunidade, Tia Eva queria que seus familiares ali permanecessem e ali se desenvolvessem. Ser descendente de alguém tão forte deve fazer correr nas veias a mesma força e gana, não é algo que dê para explicar em pouco punhado de palavras, é necessário sentir. E na constante de sensações, Andrinéia hoje leciona Sustentabilidade e Estudos Orientados para as crianças, algumas que também têm o mesmo sangue.
      Sempre otimista, acredita que um dia fará parte da escola dos sonhos e, mais do que isso, ter papel relevante nessa mudança. Mas uma escola que tenha apenas mulheres na gestão e no ensino talvez já mostre que as transformações estão ocorrendo. Associar uma vida de batalhas à meritocracia é injusto com a parcela da população que não consegue se alçar da mesma forma e, ao mesmo tempo, pequeno demais para uma mulher como Andrinéia, que enxerga beleza em cada passo e caminho tortuoso que aparecem. Mas é pela educação que minorias, como ela, conseguem ser parte dos sonhos construídos pelo sistema.

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A 

Eva Maria de Jesus em seu ato de fé para com seu santo intercessor, São Benedito, conforme conta a história, tinha uma ferida que não se fechava em sua perna, por isso fez a promessa de que, se fosse curada, construiria uma igreja para seu santo de devoção e realizaria uma festa caso o seu pedido fosse alcançado.

      Essa promessa foi movida por um ato de fé. Mas afinal, o que é fé? “Para nós a fé é um modo de viver. É uma convicção que Deus é criador de tudo que existe. Então quando nós falamos das promessas talvez a gente dá atenção ao nosso lado, nossas necessidades que nós apresentamos a Deus. Mas, na verdade, no início todas as grandes religiões e as festas eram ligadas a ação de graças. ”, conta o bispo auxiliar de Campo Grande, Dom Mariano. 

 

      Ex-votos suscepto 
      Palavra que vem do latim que significa “o voto realizado”. É uma forma de oferenda para agradecer ao santo pelo milagre recebido. Nesse caso, temos a Igrejinha de São Benedito construída em decorrência da graça recebida como um presente de reconhecimento a São Benedito. Os ex-votos são muito comuns e os mais conhecidos no Brasil estão na Basílica de Aparecida do Norte, na Sala dos Milagres, onde os fiéis deixam objetos como provas dos milagres, podendo ser de qualquer tipo, desde fotos até próteses ortopédicas, qualquer coisa que simbolize a graça concedida. 
      Na Igrejinha de São Benedito havia este espaço em que as pessoas depositavam objetos, conforme ocorre na Basílica de Aparecida. Essa prática ainda se mantém hoje. No altar são depositados os sinais dos milagres alcançados como fotos, muletas e outros. A própria igreja que pulsa no coração da comunidade é um ex-votos.

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Desde 1919

     Em estilo afro, jovens, idosos e crianças, descendentes ou “in memória” de tia Eva, reúnem-se na principal rua da comunidade. E nem mesmo a noite fria, de maio, intimida o clima de festa. Era a 99ª edição da festa promovida pela Comunidade urbana Tia Eva, realizada em devoção a São Benedito, em continuidade à promessa da fundadora Eva Maria de Jesus. 
      São 10 dias de festa e a programação mescla religião, cultura e esporte. A noite de abertura do evento deste ano foi inaugurada com a apresentação da Orquestra Municipal de Campo Grande seguida da missa “Afro” nos moldes de uma novena.
      Gratificante, foi o que o maestro Ezequias Barcelos Machado disse ao se apresentar com sua orquestra no evento. Ressaltou que seu antecessor, o maestro Ulisses Conceição, é negro e tinha orgulho em participar das festas da comunidade.
      Como a tradição requer valorização e diversificação afro cultural, na mesma noite teve igualmente esperado, o ritmo da bateria da Escola de Samba Igrejinha, terminando com uma novidade desta edição 2017, o “Social Tia Eva” que misturou funk e musica eletrônica.
      Para o presidente do evento, Eurides Antonio da Silva, conhecido por “Bolinho”, essa variedade de estilos musicais é uma necessidade nos dias atuais e um estímulo à participação dos jovens interessados pela tradição, já que são eles que deverão dar continuidade à promessa da matriarca Tia Eva.
      “Nos preocupamos com o interesse dos jovens em saber a origem dessa tradição, precisamos unir forças para os próximos anos. Por isso, queremos preparar um material com vídeos e panfletos para explicar às novas gerações o porque fazemos todo ano essa comemoração. Não podemos aceitar que alguém aqui da comunidade não saiba a sua própria historia”, diz.
      A continuidade anual da Festa em devoção ao Santo que curou Tia Eva é uma preocupação das matriarcas da comunidade. Dona Adair Geronima, de 83 anos, bisneta de Eva, teme o enfraquecimento da promessa, dentre os motivos ela ressalta o crescimento de outras religiões que não partilham do mesmo ato de fé em São Benedito. Ela reforça que o louvor ao santo é essencial e deve estar presente em todos os dias de celebração. “Foi assim que minha bisavó pediu”, declara.  
      Já Vania Lucia Batista, 42 anos, diz que a religião é de foro íntimo, e mesmo diante das diversas religiões, a festa tem sua importância em respeito a história de Tia Eva, que, com sua fé inegável, trouxe uma imagem de São Benedito de Mineiros e fundou a comunidade, tornando-se um marco para a cidade de Campo Grande.
      “Eu entendo que todos nós temos uma fé, e qual seja o problema, devemos recorrer a nossa fé. Entender que tem algo superior a nós e que está para nos acolher e nos ajudar. Essa foi a fé dela. A minha pode até ser diferente, mas eu não posso desprezar a fé dela. Essa festa começou com Tia Eva e deve continuar nos dias de hoje”, diz ela. Acrescenta que os demais elementos da festa, possibilitam que todos da comunidade participem, já que existem moradores que não são católicos, mas participam do campeonato de futebol, da corrida e dos eventos culturais.
      Dona Neuza, relembra saudosamente das festas de sua infância. “A comunidade se envolvia mais e as mesas de ofertórios eram fartas de alimentos, havia vários tipos de doces, bolos. Eram meses de preparação e expectativa para os dias da festa. Hoje tem muitos querendo o churrasco, mas não querem participar na organização e nem são devotos de São Benedito, isso é um absurdo”, conta. 
Outra preocupação de Dona Neuza é a arrecadação de recursos para a realização da festa. “Antigamente havia mais festeiros e interessados em participar com doações, hoje temos dificuldade de apoio até do poder publico. Isso complica a continuação da tradição, mas não vamos desistir”, complementa que angariar fundos a partir da festa seria interessante já que existem ações que demandam dinheiro dentro da comunidade, como um auxílio aos moradores em dificuldade ou até mesmo a reforma da igreja de São Benedito, dando continuidade à preocupação com o bem estar e com a fé dos moradores, assim como Tia Eva, que de acordo com os relatos, buscava ajudar a todos.
      A professora Vania também acredita ser importante a boa administração do recurso proveniente da festa e o incentivo em oportunizar diversas formas de renda aos moradores com a venda de artesanatos e culinária local durante os dias do evento. 
      Bolinho diz que tem buscado apoio junto ao poder público, mas poucos estão interessados em ajudar. “Tia Eva pediu para que nós, descendentes dela, celebrássemos sua cura pela fé em São Benedito e que oferecêssemos uma festa todo ano sem cobrar nada aos moradores, no entanto essa é a 99ª celebração e cada ano fica mais difícil a realização sem ajuda financeira”. diz o presidente da comunidade.
      Apesar das dificuldades a programação é repleta de ações positivas, como palestras sobre empoderamento da mulher negra, torneios de futebol, corrida do bem, apresentações culturais, concursos de poemas e poesias sobre a historia de Tia Eva, um grande churrasco gratuito no fechamento da festa e principalmente, as missas, procissões e os terços rezados no período da festa em devoção a São Benedito.
      Vinicius Batista tem 22 anos, é pai do menino Guilherme e junto aos amigos, aguarda com expectativa a festa, principalmente as apresentações musicais que para ele, garante a diversão da juventude local. “Nestes dias a comunidade toda fica em festa, o clima é outro. Reencontramos amigos e fazemos novas amizades”. Ao ser questionado se ele irá transferir essa tradição ao filho, ele diz que sim. Como sua mãe o ensinou a respeito da história de Tia Eva, ele fará o mesmo com Guilherme. “É a nossa cultura”, diz ele.
      Moradores até relatam que a festa não acontece exatamente como nos tempos de Tia Eva. “ A cultura não é estática, ela muda, as pessoas passam por mudanças e a festa precisou adaptar-se à realidade atual”, ressalta uma moradora. 
Mas rumo ao centenário em 2019, o orgulho da história é comemorado anualmente e a tradição segue igual, uma festa que traz religião, cultura, esporte e união para Comunidade Tia Eva.

1. Infância
Cristóforo Manassari e Diana Lancari, pais de São Benedito e escravos etiópios, vendidos por portugueses para a família Manassari na Sicília, no século XV, decidiram não ter filhos, pois a criança também seria escrava assim como eles. Sabendo disso o Patrão dos pais de Benedito, prometeu que o primogênito do casal nasceria liberto. Diante dessa promessa nascera Benedito Manassari em 1524, na pequena cidade de São Fratelo.

3. Frades Menores
Dentro do convento Santa Maria de Jesus, em Parlemo, Benedito é admitido como frei dentro da ordem dos frades menores e volta a exercer a função de cozinheiro e faxineiro na nova casa. Mesmo sendo frade, isto é, não podendo exercer a função de sacerdócio, Benedito continuava a ser procurados por fieis e sua sabedoria era reconhecida por muitos membros da ordem religiosa o procurava em busca de conselhos. Com isso, assim como foi no eremitério, aos 59 anos de idade, os irmãos do convento o elegeram como o guardião da casa.  A pós o seu tempo como guardião expiara, o frei franciscano retornou a sua função na cozinha om muita alegria.

padroeiro

A carta de Paulo à igreja de Coríntios retrata a sabedoria de Deus manifesta na vida de São Benedito. Mesmo sendo analfabeto o santo mouro, como é conhecido, se destacava pela sabedoria e sua conexão com o Espirito Santo. O Padroeiro dos cozinheiros, outro nome dado ao santo, foi primeiro santo “Negro” e descendente de escravos a ser canonizado pela igreja católica.
A falta de documentos e os diversos grupos dentro da ordem franciscana (Ordem dos eremitas, dos frades menores, capuchinhos e conventuais) que Benedito ingressou prejudica a perícia de sua vida. Dentre toas as versões apresentada, este texto se espelha em dados apresentados pelo de site italiano San Benedetti l moro.

2. Eremita
Desde menino Benedito tinha grande devoção a Deus e um desejo de consagrar-se ao serviço de Jesus. Quando alcançou a idade de 21 anos, conheceu um eremita chamado Jerônimo que lhe pediu para vender os dois bois, seus únicos pertences, que o seguisse. Benedito fez o foi pedido, distribuiu o dinheiro da venda aos pobres e ingressou como eremita na irmandade de São Francisco de Assis, fundado por Jerônimo Lanza, em Palermo, capital da Sicília. 
Mesmo levando uma vida humilde trabalhando como cozinheiro, sua sabedoria e conhecimento ganharam fama por toda Sicília, sendo procuradas por fieis em busca de conselhos, orações milagres. Tais virtudes fez com que Benedito, mesmo sendo analfabeto, fosse escolhido como guardião do eremitério, após a morte de Jerônimo.
Após 17 anos, o Papa Paulo IV ordenou que todos os eremitas recuassem a uma ordem franciscana. Obedecendo a esse comando, Benedito passa a ingressar no convento de Santa Maria de Jesus.

4. Morte
A morte de Benedito foi profetizada pelo próprio quando uma doença o atacou pela primeira vez em 1589. Na hora de sua morte ele avisaria aos irmãos da fé com uma vela acessa e nesse dia o povo não saberia do ocorrido. Mesmo assim se recuperou rapidamente.
Meses depois tal enfermidade volta e a profecia do frei franciscano se confirmara. Era 4 de abril de 1589, terça-feira depois da festa de pascoa, em que Benedito Manassari falecera aos 56 anos de idade, dos quais 17 anos dedicou ao eremitério e 27 ao frades menores.
Passadas as comemorações da Pascoa, espalhou-se a notícia da morte de Benedito e uma multidão de fies, entre leigos e eruditos, pobres e nobres, celebraram louvores ao frei franciscano por meses. 

5. Pós Morte
Três anos após a sua morte o corpo de Benedito foi colocado em uma urna na sacristia do convento Santa Maria de Jesus. Depois de 19 anos, no dia 3 de outubro o corpo fora transferido para um caixão de vidro e colocado em um lugar de honra na igreja do convento, onde permanece até hoje. Depois de 218 anos, são benedito foi canonizado pela igreja no dia 24 de maia de 187 pelo papa pivô VII.

O altar

      O sol ardia a pele, e os olhos, numa tentativa de se proteger da luz forte que ofuscava o céu limpo, ficaram semicerrados. A primeira construção que me chamou atenção ao chegar à comunidade foi a igreja de São Benedito, pintada de branco com portas e janelas azuladas, mais parecia uma capela. A dicotomia do lugar não passou despercebida: pequena e ao mesmo tempo grandiosa. Bem em baixo daquele chão de madeira está Eva Maria de Jesus. 
      Está sua devoção, seu respeito, uma parte de sua luta, seus ossos, e seu altar. Entrei com o pé direito em consideração ao lugar percebido como sagrado, fiz o sinal da cruz em um ato de cordialidade. O cheiro de madeira que exalava de todo o canto me remeteu ao aconchego de casa de vó. Havia cinco São Benedito espalhados pela igreja. Um deles, bem pequenino posicionado numa pequena prancha de madeira acima da cabeça, no centro do altar, foi este que acompanhou Eva em sua caminhada até aqui.

 

O altar é onde se dispõe os objetos sagrados e a devoção. É o canal simbólico que transporta e conecta o invisível e individual mundo espiritual com a fé daquele que se ajoelha diante dele.

   

     

Em hebraico a palavra altar significa sacrífico, talvez esteja aí o ponto que une a espiritualidade em suas diversas esferas. Independe da religião, toda fé guarda o seu altar interior e exterior. Em cada religião existe devoção em algo, a do candomblé nos Orixás, o judaísmo em um único Deus criador e Tia Eva em São Benedito um santo católico. E cada uma delas tem o seu sacrífico, este que é visto como entrega, adoração e devoção. Seja como for, é o modo como expressam a sua fé e seu compromisso.
   É no pano branco, muito bem passado por sinal, estendido sob a bancada de madeira, no qual comporta toda a composição de santos no altar da igreja de São Benedito, que mora o sacrifício de alguém. São nas flores espalhadass pelo altar que mora a devoção de alguém. Quadros de santos católicos pendurados em cima do altar, que no total, compõem quatro altares semeados pela igreja, demostram a religiosidade daquele lugar.
   A fé carrega responsabilidade, e toda a comunidade criou raízes, de certa forma amparada pela devoção em São Benedito trazido por Eva e transformado em tradição, que fortalece a cultura de um povo sempre disposto a contar suas histórias, que carregam a fé no santo milagreiro
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A COMUNIDADE

Na manhã de uma terça-feira, a principal rua da Comunidade Tia Eva encontra-se calma e vazia.

      A brisa da manhã percorre o vazio deixado pelos moradores no momento em que saíram para trabalhar. O sol ameno ilumina a estrutura das casas e o único som que se escuta, é o das crianças brincando no intervalo entre as aulas da escola. Logo avistamos o presidente da Associação dos Descentes da Tia Eva, mais conhecido como “Bolinho”.
       Sempre simpático e acolhedor, nos cumprimenta e numa breve conversa, nos informa sobre os preparativos para a tradicional festa de São Benedito e somos apresentadas para mais duas pessoas. A que mais chama atenção é Damião de Jesus, ao se aproximar mostrando o rap que compôs para sua apresentação durante a festa. 
      Carismático e extrovertido, Damião, ou como gosta de ser chamado “Mc da Rima”, se dispõe a nos acompanhar e ajudar na prospecção das entrevistas. A partir daí começamos nosso tour pelas ruas e casas da tradicional comunidade quilombola de Campo Grande.
      Aos 22 anos já é conhecido por todos na região, mesmo morando na comunidade rural de Furnas do Dionísio, também localizada na capital sul matogrossense. Durante nosso trajeto, relata a vida humilde que leva desde muito novo. “Meu lazer lá era brincar no barro, andar de bicicleta, soltar pipa e andar a cavalo. Dos 12 anos pra frente, trabalhar”. Assim como o jovem músico, essa é a realidade de diversas crianças, que muitas vezes não possuem conhecimento do mundo afora. 

​​Damião de Jesus,

22 anos. 

      Após interromper seus estudos na sétima série por questões judiciais, Damião dedicou seu tempo livre para a arte. “Eu faço música, paródia, toco bateria, violão, cavaquinho, pandeiro, tantã, reco-reco... aprendi tudo sozinho”. Além de integrar o grupo de pagode “Raízes da África”, também dá aulas de dança para o “Baile dos Morenos”, um projeto desenvolvido pelos próprios moradores, para entreter jovens, adultos e idosos da comunidade pelo preço de 1 real. 

      Entre casas, salões de beleza, escola e gráfica, o lazer se ampara nos pequenos estabelecimentos e improvisos. Para as crianças, as brincadeiras na rua e o campo de futebol traçam linhas e histórias de sua infância. Os jovens se ocupam no bar da “tia Ruth” e reunindo os amigos em casa com narguilés e tereré. Já para os idosos, a igreja é o recanto de fortalecimento de suas crenças e uma forma de passar o tempo. 
      Inúmeras promessas políticas de melhorias permeiam a vida dos descendentes da Tia Eva. “Tinha muita coisa pra vir aqui que ainda não veio”, afirma Gerônima Borges da Silva, de 84 anos.  A cada ano de eleição, a esperança se renova. O reconhecimento da existência da comunidade é passageiro, como afirma os moradores. Mesmo com pequenas conquistas, ainda há muito o que ser feito.

      A associação é a fonte de transformações para os moradores. Em 2017, possibilitou a retomada dos campeonatos no campo de futebol, conhecido como Arena Tia Eva, e hoje passa a reunir mais de 15 equipes. Para o futuro, buscam mais infraestrutura para centros de lazer e fortalecimento da cultura, a partir de acordos com a prefeitura da cidade. 

Novos olhares

      A comunidade Tia Eva, é conhecida por ser uma comunidade remanescente de quilombo em Campo Grande, reconhecida pela Fundação Cultural Palmares em 2008. Da sua criação e consolidação, diversos projetos aconteceram na comunidade, em apoio com universidades, órgãos da prefeitura e do governo. Podemos citar a própria Festa de São Benedito, realizada no mês de maio em homenagem a promessa feita ao pedido de uma cura. Junto com a construção do busto da Tia Eva e Negraeva, projetos realizados com os cursos de Artes Visuais e Jornalismo, respectivamente, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Este último, contando a história de Eva Maria de Jesus, a “Tia Eva” e a criação da comunidade São Benedito. 
      O memorial do busto, realizado como tema de monografia da acadêmica de Artes Visuais, Maria de Oliveira em 2002, foi construído pelos pedidos dos descendentes como Seu Michel e por visitantes, pelo valor de patrimônio histórico e ter uma imagem para conhecer Tia Eva. Além do valor histórico, o busto construído e idealizado com o projeto Negraeva, fez com que melhorasse a autoestima da comunidade. Infelizmente, o monumento não tem autoria por um erro da Fundação de Cultura.
      Com o curso de Jornalismo da UFMS, houve o projeto de rádio comunitária, a Rádio Popular São Benedito. Projeto realizado pela, então acadêmica, Eliane Maria Gonçalves Tavares. Durou de 1992 a 1994, visava a comunicação alternativa graças a uma rádio comunitária legalizada e de posse da comunidade. Um passo importante à comunidade foi o Encontro dos Descendentes da Tia Eva, idealizado e posto em prática pelo primeiro presidente da comunidade, Sérgio Antonio da Silva, o “Seu Michel”, atualmente na terceira edição e planeja-se a quarta com o tataraneto de Tia Eva e filho de “Seu Michel”, Eurides Antonio da Silva, o “Bolinho”.

 

      Em busca do novo Ponto de Cultura e Lazer em Campo Grande
      Durante a abertura da 99º Festa de São Benedito, no dia 11 de maio, o presidente da comunidade, líder da Associação dos Descendentes da Tia Eva, Eurides Antonio da Silva, o “Bolinho” anunciou o convênio de parceria entre a associação e o Grêmio Recreativo Escola de Samba Igrejinha, com a presidente da escola de samba Igrejinha, Mariza Fontoura Ocampos.
      No mesmo dia, Cláudio Luiz de Brittes, diretor do Conselho Fiscal da Escola de Samba Igrejinha, comentou sobre a aproximação da comunidade com a escola de samba, gerando muitos frutos.
      Na comunidade, projetos de variados temas estão em destaque. Um deles é a criação da escola estadual, Antonio Delfino Pereira, construída durante a gestão do primeiro presidente da comunidade, Seu Michel. Na sua gestão, de 1957 a 2006, cursos como construção civil, junto com o Sindicato dos Trabalhadores de Construção Civil e de artesanatos, como corte e costura, com a prefeitura. Um dos projetos, aliada à prefeitura, entregou casas populares em 2006, com a Agência Estadual de Habitação Popular do Estado, a Agehab, como Projeto Novo Habitar. Uma das maiores realizações feitas pelo Seu Michel foi o 1º Encontro dos Descendentes da Tia Eva, realizada em 2004. Reunindo diversos descendentes, espalhados por vários lugares do estado de Mato Grosso do Sul e até de outros estados, em prol de juntar a família, iniciada pela Tia Eva.
      Na gestão de Lúcia da Silva Araújo (2007-2015), focou na profissionalização da comunidade, dando novos horizontes com cursos para levar ao mercado de trabalho, como eletricista, manicure, corte e costura, bordados e cerâmicas. Estes dois últimos, usados para contar a história da comunidade. A cultura também foi abordada, como o Projeto Campo Grande Meu Amor, curso de cinema-documentário, com o grupo Marruá Arte e Cultura. É o que nos conta Vânia Lúcia Baptista Duarte, vice-presidente na gestão Lúcia e integrante do Grupo de Mulheres Negras, o Gmune-Tia Eva.
      Na gestão atual, presidida por Eurides Antonio da Silva, o Bolinho (2016-hoje), um projeto de parte social é a horta comunitária escolar, proposta conjunta com Getúlio Mendonça, vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares de Campo Grande, de espalhar para todas as comunidades quilombolas do estado.
A base principal é a questão da identidade e cultura negra, como o planejamento de retorno de projetos como a confecção de bonecas negras, a Festa de São Benedito e o trabalho conjunto com a Escola de Samba Igrejinha. Em esportes, eventos como o campeonato amador Torneio Tia Eva, que ocorre desde os anos 80, a Corrida Tia Eva, realizada pela primeira vez no dia 13 de maio deste ano e a escolinha de futebol Jovens Promessas Tia Eva. 

Histórias maternas

      Aos 78 anos, Luzia de Arruda Silva não está acostumada a conversar com repórteres. “Sempre quem fala é o Michel”, foi o que a esposa do patriarca da comunidade Tia Eva respondeu ao ser convidada para dar entrevista. Estava surpresa e até mesmo tímida, mas havia um sorriso em seu rosto e este não saiu em momento nenhum. Junto dela estava Priscila Bento da Silva, sua neta de 31 anos. As duas conversavam sobre a criação dos filhos, o acesso à saúde e educação dentro da comunidade.

      A caminhada rumo à saúde
      Dona Luzia colocou 14 crianças no mundo. Destas, 12 vingaram. “A medicina não era tão avançada”, explica, relatando a perda de um dos filhos que teve uma infecção no umbigo. “A gente cuidava em casa mesmo, tratava, tratava, mas ele não sobreviveu.”
      Os primeiros partos foram feitos com a ajuda de uma parteira. “Parteira boa”, relembra, “me deu um banho tão quente que a criança logo nasceu.” O único nascimento diferente foi o de sua caçula, que veio através de parto normal feito na Santa Casa. A ida até o hospital não foi das mais fáceis. Prestes a parir pela última vez, dona Luzia andou uma distância de 4km da comunidade até o local onde daria à luz. Não havia transporte na época, nem mesmo público — não nos arredores da comunidade, pelo menos —, então não tinha outra escolha.
      Os relatos da neta são diferentes. “Tem um postinho aqui na esquina, tem um na Nasser, tem um na Coronel Antonino”, aponta os locais de pronto atendimento próximos. A distância aos postos de saúde não é a única coisa que impressiona. A rapidez em conseguir uma consulta também é um ponto enaltecido por Priscila. “O prazo máximo é de uma semana”, disse, mas admite que nem tudo é perfeito. As unidades não estão equipadas para todos os tipos de exame, então já houveram situações em que precisou ir até a Santa Casa para obter alguns diagnósticos. No geral, caracteriza o atendimento ao qual tem acesso como “muito bom”, e se sente grata por isso.

      A criação dos filhos na comunidade
      Priscila mudou-se para o bairro Caiobá, deixando a comunidade por algum tempo. Como mãe, não considerou o ambiente bom para criar seus filhos, dando preferência para o local onde nasceu e cresceu. “É uma diferença muito grande”, aponta. Para ela, não dá para comparar o espaço onde está com o bairro onde morou durante um curto período. 
      “Aqui, um ajuda a cuidar do filho do outro”, relata a mulher que vê atenção e empatia entre os membros da comunidade. Esse é um costume que existe desde a infância da própria Priscila. A neta de dona Luzia relembra que vivia empoleirada nos galhos das mangueiras que tinham no entorno. Sempre recebia alguma orientação quando era surpreendida por alguém da comunidade. “Ô guria, vai almoçar! Ô guria, vai jantar! Ô guria!”, exclamou, imitando as coisas que escutava. Nunca era algo dito com maldade, de acordo com Priscila. 

      As diferenças entre as infâncias de duas gerações
     A sensação de liberdade era maior antes dos anos 2000. Quando não havia asfalto, as crianças tinham mais permissão para brincar na rua. Jogavam bola, corriam. Hoje, com o fluxo frequente de ir e vir dos carros e dos ônibus, o cenário mudou um pouco de figura. “Agora as coisas são mais moderadas”, explica, mas acrescenta que as brincadeiras continuam dentro de casa do mesmo jeito.
    As brincadeiras não são as únicas que ganharam um novo formato. O acesso à educação também mudou, graças à Escola Estadual Antônio Delfino Pereira construída dentro da comunidade, onde três dos quatro filhos de Priscila estão matriculados. O caçula também vai começar os estudos ali quando alcançar os 3 anos, idade para ser admitido. “Se todos tivessem um bairro assim, seria bom”, finaliza Priscila.

Como chegar?

      A comunidade de São Benedito fica na região urbana do Segredo, localizada no jardim seminário. Partindo da praça Ary Coelho a distância é de 5,2 km. Apesar de ser um dos pontos históricos da cidade, a comunidade tem uma vida normal. Quem quiser conhecer melhor a comunidade, deve agendar a visita com antecedência junto ao presidente da Associação dos descendentes da Tia Eva, Eurides Antônio, pelo whatsapp 99146-5990 / 3365-0028 (falar com Michel) ou email: bolinhoaxe@gmail.com.

      De ônibus
      Pegue a linha 227- Tia Eva/ Saraiva, na rua Rui Barbosa no ponto de embarque que fica entre a 15 de novembro e a Afonso Pena. Esse Linha irá passar pela avenida Mato Grosso, rua 14 de julho, irá seguir pela rua do Seminário até chegar no ponto de descida da rua Dom Cirilo em frente à comunidade São Benedito. Duração do percurso: 40 minutos. 

 

      De carro
      Saindo da praça Ary Coelho, siga pela rua 14 de julho em direção à Avenida Mato Grosso, em 2,6 km vire à esquerda na rua Dr. Euler de Azevedo. Na primeira rotatória, pegue a 1° saída para a avenida Presidente Ernesto Geisel. Na segunda rotatória, pegue 2° saída e mantenha-se na Ernesto Geisel. Siga reto. Na terceira rotatória, pegue a 3° saída para a rua Canaã. Depois, vire à esquerda na avenida Prefeito Heráclito Diniz de Figueiredo e logo em seguida vire à direita na rua Dom Cirilo.

Expediente

Esta reportagem foi produzida pelos acadêmicos e acadêmicas do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul na disciplina de Ciberjornalismo 1, no segundo semestre de 2018.

Reportagem

Ágatha Santos
Crislaine Brito
Geovanna Yokoama
Juliana Nogueira Santana
Laura Brasil
Lucyan Souza
Mayara Bakargi
Neize Borges
Nicolle  Por Deus
Richard Lima
Tábata  Cendy Rauschkolb Brás

Planejamento gráfico

Loraine França

Professor responsável

Edson Silva

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