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Osni, o senhor autoestima

Atualizado: 12 de jul. de 2020

Ele usou a adversidade como trampolim

Perfil produzido por alunas da disciplina Entrevista e Pesquisa Jornalística 2020/1 do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, sob a orientação do prof. Edson Silva. Foto: arquivo pessoal.(*)

O canto já conhecido de Parabéns é entoado de forma rápida já que todos querem logo devorar o bolo de chocolate. A festa comemora os 68 anos de Osni Alves Sobrinho. Um homem de porte alto, com seus 1,75, olhos castanhos e com cabelos e barba que refletem os anos de experiência. Veste bermuda jeans e camisa polo, roupas que raramente usa em seu cotidiano, já que sempre é visto com trajes sociais. Estão presentes 10 pessoas, entre elas filhos, filhas, netos e netas, que se reúnem em torno da mesa. No centro, o bolo de chocolate.

Após o fim das palmas e do canto, o aniversariante corta o bolo de baixo para cima, seguindo uma simpatia para que seu desejo se realize. Izabella, uma de suas filhas, divide e distribui a guloseima para os poucos convidados, já que a pandemia impede aglomerações. Entretanto, nem sempre suas comemorações de aniversário foram assim. Osni não se recorda de nenhuma festa de aniversário em sua infância, a primeira festa da qual se lembra foi uma comemoração surpresa aos 40 anos.

˗ Tive a infelicidade de perder minha mãe aos 11 meses de idade. Quando minha mãe faleceu, junto faleceram dois irmãos meus, morreram afogados no rio. Passado mais um ano morreu um outro, de tétano. Vivi minha infância na mão de madrasta até atingir a idade de 18 anos quando então mudei para São Paulo.

Além de toda a perda familiar, Osni também perdeu a visão em um acidente provocado pela parteira que atendeu sua mãe. As marcas dessa sequela estão no seu olho esquerdo que nada enxerga.

˗ Me chamavam de “picega”, “ caolho”e “ tainha”, pois eu tinha o olho meio virado e a tainha tem o olho virado também. Mas, isso não me afetou em nada não. É ruim sim, pois tenho a visão de uma vista só e eu sempre tive a curiosidade de saber como é enxergar com os dois olhos.

Osni durante sua infância não teve uma relação muito boa com suas madrastas. Seu pai, Acylino Alves, após perder a primeira esposa, viveu um relacionamento curto com uma mulher conhecida como “Pequenina” que tratava mal as crianças ao fornecer apenas um prato de pirão d’água e uma rodela de linguiça para cada filho.

A segunda madrasta de Osni, com quem ele teve mais filhos, também destratava as crianças provenientes da primeira relação de Acylino. Ela priorizava seus filhos dando a eles as melhores partes da comida, além disso só batia nas crianças que não eram suas. Os conflitos com suas madrastas fizeram com que Osni convivesse mais com o pai. Tanto que ao olhar para o passado, sente saudades da relação paterna.

- Todo dia meu pai chegava do serviço e nós íamos pescar até umas nove, dez horas da noite. Isso me dá saudade.

Pai e filho pescavam em um braço de mar a 2km da casa da família, eles iam de carona no caminhão de um homem que morava próximo e possuía um barco. Osni esperava em frente de casa com todos os apetrechos necessários e a pesca só terminava às 22h. Durante a pescaria, Osni trajava short e camiseta, já que "quem usava calça comprida era filho de rico". A pesca era feita com uma linha enrolada em uma tábua, e aos fins de semana, amigos de Acylino também iam para o mar armar uma rede, foi nesta rede que certo dia pegaram uma tartaruga que, segundo Osni, estava muito gostosa.

No dia seguinte, acordava às 6h, alimentava as galinhas e ia buscar água no poço, que ficava localizado a 100m de sua casa, e, só então poderia partir para a escola, cujas aulas começavam às 8h. Osni não teve o privilégio de concluir seus estudos, já que interrompeu sua educação na 4ª série do primário, hoje conhecida como 5º ano.

- Consegui estudar só até a quarta série primária, mas tive um bom aprendizado e no decorrer da vida procurei aprender bastante. Cheguei a pensar uma época que se tivesse conseguido estudar, por gostar muito do que faço, talvez eu tivesse seguido a mesma profissão, mas então eu seria um engenheiro eletrônico, um engenheiro em telecomunicações, qualquer coisa nessa área. Não passa pela minha cabeça uma outra área.

A festa de aniversário ocorre em um dos patrimônios que Osni construiu “graças ao fruto de muito trabalho”. Em uma chácara de 1500m², fica o sobrado em que Osni vive atualmente. O local guarda anos de histórias da família e foi pensado para abrigar muita gente, de forma confortável. Possui uma garagem espaçosa que permite 3 carros, uma área de piscina, uma área para churrasqueira, 5 quartos, 4 banheiros, 2 salas, 2 cozinhas e um fundo enorme gramado, que era destinado aos animais de estimação que a família já possuiu. As paredes da propriedade já presenciaram diversos momentos alegres, entre eles festas de aniversários de filhos, netos, agregados e almoços de domingo em família. Mas, momentos tristes também marcam a propriedade, diversos animais de estimação acabaram se afogando na piscina e esta foi a casa em que o terceiro casamento de Osni chegou ao fim. Seu sucesso profissional garante a vida que ele tem até hoje.

- Então hoje o meu serviço é telecomunicações e sistema de segurança. Trabalho com sistema de circuito fechado de tv e com sistemas de alarme, segurança para empresas. O importante não é o que se vai ganhar, o importante é você gostar do que faz. Se você gostar do que faz, você automaticamente vai fazer bem feito. É assim que eu penso e outra coisa, apesar de me considerar um dos melhores técnicos da área na região, ainda não me acho o que sabe tudo, que sou o melhor, ainda tenho muito pra aprender. Então, enquanto eu pensar que tem pra aprender, vou cada vez progredir mais.

Os seus aprendizados na área de telecomunicações iniciaram-se logo aos 15 anos e o empenho foi crucial na sua carreira profissional. Considerava o seu professor um gênio da telefonia na época e procurou extrair dele o máximo de conhecimento que pôde, já que não foi nada fácil acompanhar a evolução tecnológica da sua área. Ele é da época em que não se pensava em celulares, nem em computadores e viveu o tempo das máquinas com fita cassete. Hoje, se não possuir um notebook nas mãos, não consegue realizar o seu trabalho.

- As telecomunicações, se pegarmos quando eu comecei de lá para cá, mudou radicalmente. E tive que vir acompanhando a evolução da telefonia. E daí foi evoluindo, chegou nas centrais eletromecânicas. Das eletromecânicas vieram pra centrais eletrônicas e, hoje, chegamos na central digital que se eu não tiver um notebook na minha frente, pra mexer numa central, não tenho como fazer nada e, não seria só ter o notebook, eu tenho que ter algum conhecimento do notebook também. Tive que aprender informática na marra.

Ao se tratar de sonhos profissionais na infância, Osni não teve nenhum, pois o que importava era fazer algo lucrativo. Quando sua irmã conseguiu um emprego, Osni sentiu mais intensamente a necessidade de ter algo semelhante. Em suas próprias palavras “eu precisava de alguma coisa”. Tanto que chegou a pensar em ser engraxate, foi vendedor de picolé, cobrador de ônibus até que chegou em sua atual profissão.


- Eu não tinha grandes sonhos. Passei a ter sonho profissional quando ingressei na área da telecomunicação, eu queria ser bom, um técnico eficiente e graças a Deus eu me tornei.


Umas das pessoas presentes na festa de aniversário de Osni é sua namorada, Rosana Rainert, que conheceu no Facebook, em janeiro deste ano. Todavia, a vida amorosa de Osni data de muitos anos atrás e é marcada por paixões platônicas, três casamentos, três divórcios e algumas namoradas.


- Minha primeira paixão: minha irmã trabalhava num hospital, era enfermeira, e tinha uma amiga dela que também era enfermeira e eu me encantei com a menina só que ela era bem mais velha e achei que estava apaixonado por ela e no fim não foi isso. Depois minha primeira namorada foi uma moça que conheci em Campo Mourão, eu viajava bastante, ela era vendedora de livros e nos encontramos no hotel. Ela estava hospedada no hotel que eu fazia refeição aí nos conhecemos. Nos correspondemos, na época não tinha whatsapp, tinha que ser carta, namoramos, chegamos até noivar, mas não casamos.


Osni conheceu sua primeira esposa, Maria do Carmo, em São Paulo. Com ela teve dois filhos e um casamento que durou cinco anos, mas não vingou por causa do seu trabalho que demandava muito tempo. Recém divorciado, conheceu Cristina Hortência, sua segunda esposa, com quem foi casado por oito anos e teve um filho. O casamento também não deu certo porque ela queria ficar em sua cidade natal, Curitiba, e Osni estava trabalhando em Araçatuba. Por mais que o casamento tenha terminado, foi com Cristina que Osni viveu sua maior aventura amorosa, quando fugiu com ela para Florianópolis. O ocorrido chegou até dar polícia, mas ao fim tudo se resolveu quando ele declarou que casaria com ela. Durante a fuga, eles enfrentaram dificuldades econômicas, tanto que Osni lembra até hoje de ter feito um biquíni com a perna de uma calça jeans para sua amada.


O casamento de maior duração foi com a terceira esposa, Marise Pazzoto, com quem viveu por 31 anos. Ambos trabalhavam na mesma empresa, mas em cidades diferentes. Osni acabou sendo transferido para chefiar a matriz, local em que Marise trabalhava, e então eles acabaram se conhecendo. Segundo Osni, Marise foi a pessoa mais significativa em sua vida, ela foi quem o mudou completamente e o fim deste relacionamento foi muito difícil para ele. Ao longo desta relação, construíram um patrimônio e tiveram três filhos. Héllen Pazzoto Alves, 33 anos, Izabella Pazzoto Alves, 30 anos, e Osni Alves Júnior, 26 anos. Os três estavam presentes na festa dos 68 anos do pai.


Ao longo de sua história, Osni transformou-se no Senhor Autoestima. Em suas palavras: “Você tem que todo dia olhar no espelho, se achar lindo e dizer que te ama, porque se você não se amar, ninguém vai amar”. A idade para Osni não é uma limitação, prova disso é que entre seus hobbies estão caminhar e nadar. O passar dos anos, ao seu ver, não o tornou menos atraente e nem foi limitante para a sua vaidade. “Acho que estou bem melhor do que muitos por aí. Não me acho feio, eu me acho bonito sim e acho que tenho certo charme”, arremata.

 

Entrevistadoras: Alicce Rodrigues, Amanda Feitosa, Amanda Maia, Ana Gabriella Gomes, Ana Klara Tortoza, Bruna Querino, Gabriella Couto, Isabella Procópio, Maria Isabel Manvailer, Patrícia Martins, Rafaela Teodoro, Raíssa Trelha, Raquel Alves. Editoras: Amanda Maia, Ana Gabriella Gomes, Ana Klara Tortoza, Gabriella Couto, Isabella Procópio, Patrícia Martins, Raíssa Trelha, Raquel Alves. Texto final: Alicce Rodrigues, Amanda Feitosa, Ana Gabriella Gomes, Bruna Querino, Maria Isabel Manvailer, Rafaela Teodoro, Raquel Alves. Professor-orientador: Edson Silvas. Foto: arquivo pessoal.

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